Quinta-feira

MATRIARCA

A Nair de Almeida Basso





perdurará
intacta

a velha senhora
esculpida em perfumes
e pragas suaves

a mulher temporal
figurada em prendas
e plumas graves

tuas rendas
serão para sempre
vastas memórias

os teus dias
firmarão felizes
momentos à frente

e cada época
de crescimentos
e infâncias passagens

perdurará
intacta


Sábado

ESPÍRITO LIVRE



de todas essas tempestades

caladas brutas amplificadas

tua voz sobressai e vive eterna


de todos esses ventos

frios roucos retificados

tua imagem anuncia os velhos sóis


e de todas essas palavras

nascem relâmpagos da tua boca

que clama por novos caminhos


galopes em todo o tempo

respiração e alma

da existência

tua.


Domingo

TECIDO




inteiro bordado nesses céus
eu procuro por falhas no teu rendado.

em tecidos de mim mesmo
eu atento aos detalhes do pano riscado.

não se desfaz a linha do tempo
eu continuo agulhando o destino alado.

em tuas mãos de divinos vacilos
eu percebo perfeições do meu agrado.

em cada ponto das rimas da vida
eu engrandeço o teu nome costurado.

porque hoje o mais bonito corte
é o da nossa carne, fiel emaranhado.

se acaso sobrasse retalho perdido
sei que ele já teria se acabado.


Sábado

PROMESSA




O jardim suave
de penas águas folhas

A mesa cheia
canetas livros cartas

os novos cadernos
fechados em rimas aromáticas

a xícara azul
o café que fiz e me espera

nenhum cigarro a mais
nenhum a menos

promessa de toda tarde livre
pagos compromissos

certeza é inspiração:
irrisória a profundeza

Sexta-feira

BURNING



presenças gravam memórias
o vento sopra histórias
e a vida grita vitórias.

são os anos de peregrinação
queimando o que não serve
fogo consumindo desejos.

cada passo do estrangeiro
deixa saudades por estar ali
e ouvir violinos e trajetórias.

o sol descansa no mar dos vidros
e as gôndolas aportam saciadas
em beiras de escadas inundas.

a musa inglesa passa despede
os serviços caros da tradição
feliz com o passeio eternizado.

vermelho era seu vestido longo
queimando o sono do crepúsculo
contraste com a sinfonia próxima.

sangue. restaurantes acesos
remos ao chão, aromas velas
e máscaras todas vermelhas.



02.03.09

Segunda-feira

LONGA NOITE


Haikai e colagem em papel.
2oo7

Sábado

ASSOMBRAÇÃO



penso agora nos uivos,
nas friagens de teus rastejos
e na espreita da alma em descompasso
que não deixa livre teu espaço.

atento às velas que gritam,
à boca que engole os fogos
e aos choques dos mil portões
que envolvem tuas belas maldições.

ganho o medo de espelhos,
de reflexos-fantasmas insones
e de tarefas perdidas na noite perigo
que perecem aqui, sempre comigo.

assombrado é o meu coração:
ante-sala, tumba, porão.


primavera 2009

Quarta-feira

FRIO



Gelados são os abraços d´água
no banho demorado
das madrugadas em claro.

Escuras são as esperanças
que brotam em cada peito
nos momentos e desafios serenos.

Cruéis são esses ventos
que talham toda sede ancestral
de nostalgias e de futuros.

De gelo é aquele coração
trincado, permanente
de descasos e glórias.

E assim frio
é o caos.
Pois de quente
já basta toda a entranha.



L.C.
inverno 2009

Domingo

DOMINGO EM CASA




Está claro, é cedo demais.
Eu, disposto a beber das fontes,
permaneço-te.

Aqui o gato,
o livro no colo,
a xícara na mesinha
e as telas em cores, todas elas
nos teus suspiros charmosos.

Os lustres rebeldes,
o antigo sofá intacto,
janelas portas e cadeiras de dois séculos
e as paredes repintadas há um.
O bichano mia baixo,
Machado impaciente
e meu café esfria.

Acordei domingo.
A casa, velha e convidativa
de mil leituras,
permanece-me.




L.C.
primavera 2oo9

Quarta-feira

SEPULCRO MARÍTIMO


em águas turvas de corações esquecidos,
em vidas mudas de guerreiros adormecidos,
eu imaginei tua majestade.

em tempos breves de mortes prolongadas,
em celebrações profanas de vitórias apagadas,
eu criei minha verdade.

selado nos mares eternos do sentimento,
no arenoso silêncio do que é sem movimento,
eu deixei nossa idade.

teus braços disformes de profundezas
é o que me atrai ao fundo
d'oceano, o triste fim.

de nós.
de mim.




L.C. primavera 2009